PIX, blindagem e sistemas de inteligência: como policiais suspeitos estruturaram desvio de cocaína apreendida em MS

PIX, blindagem e sistemas de inteligência: como policiais suspeitos estruturaram desvio de Policiais suspeitos de envolvimento com o tráfico rastreavam carreg...

PIX, blindagem e sistemas de inteligência: como policiais suspeitos estruturaram desvio de cocaína apreendida em MS
PIX, blindagem e sistemas de inteligência: como policiais suspeitos estruturaram desvio de cocaína apreendida em MS (Foto: Reprodução)

PIX, blindagem e sistemas de inteligência: como policiais suspeitos estruturaram desvio de Policiais suspeitos de envolvimento com o tráfico rastreavam carregamentos de cocaína, monitoravam depósitos e usavam a estrutura da segurança pública para apreender drogas que, segundo a investigação, eram depois revendidas a traficantes. As informações estão em um relatório do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) obtido pelo g1. O esquema é alvo da Operação Infiltrados, deflagrada nessa quinta-feira (24), em Campo Grande, Dourados e Terenos. Segundo o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), o esquema envolvia policiais civis (entre eles um delegado), militares e um penal. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp Segundo a investigação do Gaeco, a organização funcionava sob a “chancela institucional” do delegado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa, que comandava a Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), responsável pelo combate ao tráfico de drogas. O advogado Amilton Ferreira, que faz a defesa do delegado, disse que vai comentar o caso após ter acesso aos autos. Conforme o grupo do MP, o grupo tinha funções divididas: Alguns integrantes levantavam informações sobre carregamentos; Policiais rastreavam e apreendiam as drogas; Outros recebiam e revendiam o material desviado; E havia ainda quem movimentasse o dinheiro. Policiais investigados pelo Gaeco Reprodução/Redes sociais O g1 procurou as defesas de todos os suspeitos citados. Sidneia Tobias, que representa os policiais civis alvos da operação, disse que não vai se manifestar porque ainda não teve acesso aos autos. As defesas dos demais investigados não foram localizadas até a última atualização desta reportagem. A investigação detalha a divisão de tarefas entre policiais, traficantes e outros integrantes do grupo. Segundo o Gaeco, Lucas da Silva dos Santos, conhecido como LK, fez transferências de dinheiro diretamente para um policial investigado. Os investigadores também encontraram conversas sobre pagamentos a agentes por cocaína, fotos de dinheiro e drogas e negociações envolvendo entorpecentes apreendidos. O advogado Tiago Bunnig, que defende Lucas e os familiares dele, também presos na operação, disse que não vai se pronunciar porque não teve acesso aos autos. LEIA TAMBÉM Infiltrados: delegado e outros 7 policiais são afastados após prisões em operação que investiga desvio de cocaína em MS ‘Delegado de elite’ que combatia tráfico é preso suspeito de desviar cocaína usando o próprio cargo Comparsa de policiais, mãe, esposa e irmãs são presos por desviar drogas apreendidas pela polícia Ex-policial demitido por contrabando de vapes é alvo de operação que investiga desvio de cocaína Dinheiro de traficante chegou a policial O Gaeco aponta LK como a ligação entre policiais e traficantes. Segundo a investigação, ele repassava informações sobre carregamentos, articulava a atuação dos agentes, negociava a parcela da droga que ficaria com o grupo e administrava a venda do entorpecente desviado. Dados bancários obtidos com autorização judicial mostram que LK transferiu dinheiro diretamente para Neverson Vieira de Araújo, policial civil que o Gaeco inclui no núcleo operacional do esquema. Os investigadores identificaram três transferências, que somaram R$ 3 mil. Neverson também aparece em uma apreensão usada pelo Gaeco para mostrar a relação entre policiais e traficantes. 30 kg que seriam vendidos a traficantes Em novembro de 2022, Neverson e Nilton Cesar Sales dos Santos, então lotados na Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), apreenderam cerca de 30 kg de pasta-base de cocaína escondidos no fundo falso de um carro utilitário. A polícia registrou oficialmente a carga. Dias depois, o Gaeco encontrou traficantes conversando sobre os mesmos 30 kg. “Esses 30 eles ia vender pra gente, mas apresentaram", mostrava mensagem interceptada. Para os investigadores, a mensagem indica que os policiais venderiam a droga ao grupo, mas acabaram apresentando oficialmente a carga. Policiais rastreavam, apreendiam e repassavam drogas O Gaeco coloca no núcleo operacional os policiais civis Augusto Torres Galvão Florindo, Douglas Tobias, Luiz Carlos de Souza, Marcos André Santos Chaves, Nelson Ricardo Barros de Oliveira, Neverson Vieira de Araújo, Nilton Cesar Sales dos Santos e Roberto Palmeira da Silva. Também integram esse núcleo, segundo a investigação, os policiais militares Alison Lemes Bezerra, o Daga ou Daguinha, e Thiago Bezerra Laurentino, o Grande ou Grandão, além do policial penal Vitor Ribeiro Venâncio dos Santos. O MP atribui ao grupo o “rastreamento, apreensão e posterior repasse da droga aos traficantes vinculados ao grupo”. A investigação também aponta que agentes usavam sistemas restritos de inteligência para fazer consultas a pedido de traficantes. Com acessos funcionais, policiais checavam placas e levantavam informações usadas pelo grupo. LK fazia a ponte LK tinha outra função. Segundo o Gaeco, ele articulava a atuação dos policiais, repassava informações sobre carregamentos, negociava a parte da droga desviada que ficaria com o grupo e cuidava da comercialização. Em um áudio analisado pelos investigadores, Alan Roberto Martinez Martin Abdalla, o Scooby, relata que LK dizia trabalhar com policiais da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar). Segundo Alan, LK “derruba trampo, pega mercadoria pra vender” e recebia drogas dos agentes. Ele também afirma que nunca recebeu convite de LK ou dos policiais para participar do esquema. O Gaeco cruzou o conteúdo do áudio com registros oficiais e constatou que, em 2021, Neverson e outro policial levaram LK à Denar. Depois, os investigadores encontraram transferências de LK para Neverson. O Gaeco encontrou ainda conversas que mostram a etapa do pagamento. Em dezembro de 2022, um dos investigados enviou fotografias de maços de dinheiro. Segundo o MP, o valor serviria para comprar cocaína dos policiais civis. Depois, LK cobrou de um traficante o pagamento dos policiais pela cocaína que o grupo já havia recebido. Ele também disse que precisava do dinheiro para buscar mais “mercadoria”. Na mesma negociação, LK enviou uma fotografia que acabou apagada, mas o celular preservou uma miniatura. A imagem mostrava tabletes de cocaína com a inscrição “BUGATTI”. O Gaeco comparou a foto com tabletes apreendidos oficialmente três dias antes e colocou as imagens lado a lado na investigação. Delegado tinha 'chancela institucional', diz Gaeco O delegado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa, que comandava a Denar durante parte do período investigado, ocupa outra posição na estrutura descrita pelo Gaeco. O MP afirma que Hoffman exercia “comando e chancela institucional do esquema”, viabilizava a atuação da organização e figurava entre os principais beneficiários. O Gaeco não atribui ao delegado, nesse trecho da investigação, a mesma função operacional dos agentes que rastreavam, apreendiam e repassavam drogas. Presos na operação O Gaeco pediu a prisão preventiva de 26 pessoas. Segundo o Gaeco, os agentes que deveriam retirar drogas de circulação teriam assumido o papel oposto. O órgão afirma que eles se tornaram “verdadeiros fornecedores para o tráfico”. Nesta sexta-feira (25), oito policiais presos na operação foram afastados. São eles: Luiz Carlos de Souza, investigador lotado na Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar); Douglas Tobias, investigador lotado no Grupo de Operações e Investigações (GOI); Neverson Vieira de Araújo, investigador lotado na Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP); Nelson Ricardo Barros de Oliveira, investigador lotado na Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Furtos e Roubos de Veículos (Defurv); Nilton César Sales dos Santos, investigador lotado na Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Roubos e Furtos (Derf); Roberto Palmeira da Silva, investigador lotado na Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac) de Campo Grande; Marcos André Santos Chaves, investigador lotado na 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Campo Grande. Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, delegado lotado na 6ª Delegacia de Polícia Civil. Ele foi delegado da Denar e do Garras. O que diz a Sejusp ""A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) informa que a Operação “Infiltrados”, deflagrada nesta quinta-feira (24) pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) juntamente com as Corregedorias da Polícia Civil e da Polícia Militar visa o cumprimento de mandados de busca e apreensão e prisão de investigados por tráfico de drogas e outros crimes. A operação envolve servidores das forças de segurança pública que já eram investigados pelas respectivas Corregedorias, sendo que três deles já haviam sido presos anteriormente e um inclusive exonerado recentemente. A Sejusp e as forças de segurança de Mato Grosso do Sul não compactuam com qualquer desvio de conduta ou prática ilícita por parte de seus integrantes. Eventuais desvios serão apurados com rigor, observando a legislação vigente, o devido processo legal e as garantias individuais dos investigados. A Secretaria reafirma seu compromisso com a legalidade, a máxima transparência e o fortalecimento dos mecanismos de controle e correição das instituições que a integram." Veja mais vídeos do Mato Grosso do Sul