'Escravização virtual': polícia revela esquema usado para induzir menina de 13 anos ao suicídio em MS
Como evitar que adolescente vire vítima nas redes? Polícia Civil de Mato Grosso do Sul identificou que a adolescente de 13 anos induzida ao suicídio em Navi...
Como evitar que adolescente vire vítima nas redes? Polícia Civil de Mato Grosso do Sul identificou que a adolescente de 13 anos induzida ao suicídio em Naviraí, foi vítima de um processo de escravização virtual promovido por uma organização criminosa que atua pela internet. Veja o vídeo acima. A conclusão foi apresentada nesta quinta-feira (6), durante coletiva de imprensa da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), em Campo Grande. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp Segundo a delegada titular da DPCA, Karine Sanches, a investigação descartou a hipótese de suicídio e passou a tratar o caso como homicídio. A mudança de entendimento ocorreu após a análise dos materiais apreendidos durante a operação que resultou na apreensão de seis investigados, cinco adolescentes e um adulto. O que é a escravização virtual? Equipamentos utilizados para crimes foram apreendidos Reprodução/PCMS Conforme a delegada, os criminosos utilizam técnicas de engenharia social para identificar e manipular crianças e adolescentes, principalmente meninas. O primeiro passo é localizar vítimas com perfis públicos nas redes sociais. A partir das informações disponíveis, como escola, familiares, amigos e interesses pessoais, integrantes da organização criam perfis falsos e passam a se apresentar como pessoas da mesma idade e com gostos semelhantes aos da vítima. Após conquistar a confiança da adolescente, ela é levada para plataformas menos conhecidas, onde há pouca ou nenhuma moderação de conteúdo. É nesses ambientes que começam as ameaças, a manipulação psicológica e o controle exercido pelos criminosos. Segundo Sanches, dentro da organização existe uma divisão de funções. Há integrantes responsáveis por localizar vítimas, por fazer a aproximação e aqueles que assumem o controle da adolescente após conquistar sua confiança. As investigações apontam que os administradores desses grupos passam a tratar a vítima como uma propriedade, utilizando ameaças e violência psicológica para obrigá-la a cumprir ordens, como a automutilação, maus tratos aos animais e suicídio. Violência como forma de prestígio Ainda segundo a polícia, a organização criminosa é formada por diferentes grupos que competem entre si. Conforme a delegada, quanto maior o nível de violência imposto às vítimas, maior o prestígio conquistado dentro da comunidade virtual. “Eles têm várias lideranças, eles concorrem entre si, são panelas que concorrem entre si. O que é o hype deles, porque é assim que eles falam, é ter mais violência”. LEIA TAMBÉM ‘Espetáculo de horrores’: grupo que induziu menina ao suicídio planejava outros atentados Suspeitos de induzir suicídio de menina foram apreendidos com itens neonazistas e conteúdos de abuso infantil Grupo suspeito de induzir menina ao suicídio fez mais vítimas e forçava outras violências Plataformas sem moderação A investigação também revelou que os criminosos migram constantemente entre plataformas digitais para evitar bloqueios. Segundo a DPCA, quando uma transmissão ou grupo é removido de uma plataforma, os integrantes rapidamente migram para outra com menor fiscalização e restabelecem a comunicação entre os participantes. Para a delegada, muitas dessas plataformas ainda não adotaram mecanismos eficazes de moderação previstos na legislação de proteção de crianças e adolescentes, o que facilita a atuação das organizações criminosas. Os adolescentes apreendidos viviam com as famílias e, segundo a polícia, não apresentavam comportamento que despertasse suspeitas. Durante a coletiva, Sanches relatou que os pais ficaram desesperados ao descobrirem a participação dos filhos na organização criminosa. “Foi frustrante ver o desespero da família, que não acreditavam no que estava acontecendo, porque aparentemente era um adolescente tranquilo, mas em conversa comigo, ele é um adolescente extremamente frio, ele estava muito satisfeito de me explicar como era cada detalhe, cada detalhe do crime”. Alerta aos pais A delegada fez um alerta para que pais e responsáveis acompanhem de forma mais próxima à vida digital de crianças e adolescentes. Segundo ela, o uso de ferramentas de controle parental pode dificultar a atuação desses grupos criminosos. Também orientou que os responsáveis acompanhem os aplicativos utilizados pelos filhos e verifiquem os conteúdos consumidos na internet. Sanches destacou que os criminosos ensinam as vítimas a ocultar conversas, arquivos e pastas no celular, o que dificulta a identificação do problema por quem faz apenas uma verificação superficial. Ela reforçou que acompanhar a atividade digital dos filhos não representa invasão de privacidade, mas uma medida de proteção. Por fim, a delegada alertou que o ambiente virtual pode representar um risco tão grande quanto o mundo físico. "Às vezes, os pais acreditam que o filho está seguro porque permanece dentro de casa. Mas, hoje, o perigo também pode estar atrás da tela de um celular", afirmou. O caso A investigação iniciou em 22 de julho, após a morte de uma menina de 13 anos em Naviraí. A jovem foi coagida a tirar a própria vida durante uma transmissão ao vivo no Discord que durou cerca de 45 minutos. A apuração revelou que os envolvidos utilizavam simultaneamente o Discord e o Telegram para atrair vítimas, disseminar discursos de ódio, promover radicalização violenta e cometer atos de misoginia. Ao todo, cinco adolescentes, de 13 a 17 anos, e um homem de 18 anos foram alvos de mandados judiciais nesta terça-feira (4), cumpridos no Ceará, em Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pará e Rio de Janeiro. O suspeito de liderar o grupo é um adolescente de 14 anos, apreendido na capital fluminense. Veja vídeos de Mato Grosso do Sul: