Corpos de crianças no quintal, absolvição e sumiço: o caso real por trás da ‘Bruxa da Sapolândia’, lenda há 50 anos em Campo Grande

A lenda da Bruxa da Sapolândia vira documentário A casa continua de pé. Mais de cinco décadas depois, escondida entre árvores no bairro Taquarussu, em Camp...

Corpos de crianças no quintal, absolvição e sumiço: o caso real por trás da ‘Bruxa da Sapolândia’, lenda há 50 anos em Campo Grande
Corpos de crianças no quintal, absolvição e sumiço: o caso real por trás da ‘Bruxa da Sapolândia’, lenda há 50 anos em Campo Grande (Foto: Reprodução)

A lenda da Bruxa da Sapolândia vira documentário A casa continua de pé. Mais de cinco décadas depois, escondida entre árvores no bairro Taquarussu, em Campo Grande, ela ainda recebe curiosos. Alguns, segundo um homem que morou no local e hoje é vizinho, vêm até de outros países. Tudo por causa da mulher que viveu ali e acabou eternizada no imaginário da cidade como a “Bruxa da Sapolândia”. A história começou no fim da década de 1960. Corpos de três crianças foram encontrados enterrados na região e Célia de Souza acabou presa, acusada de matar crianças e praticar bruxaria. Ela passou cerca de dois anos na cadeia, mas foi absolvida pela Justiça. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp Célia deixou Campo Grande. A história, não. Mais de 50 anos depois, moradores ainda repetem relatos que ouviram dos pais. Há quem evite partes do terreno por medo e a antiga casa continua despertando curiosidade. Agora, o caso será revisitado no documentário "O Retrato do Erro: A Bruxa da Sapolândia", previsto para ser lançado em 2027. Mas o que aconteceu naquele terreno para transformar Célia em uma das personagens mais assustadoras do imaginário de Campo Grande? Bruxa da Saplândia, mulher que desapareceu em Campo Grande Reprodução processual A prisão da ‘Bruxa da Sapolândia’ Célia vivia na antiga Vila Afonso Pena, região que hoje corresponde ao bairro Taquarussu. Na época, o lugar era conhecido como Sapolândia por causa de um grande brejo, onde havia muitos sapos. Foi dali que surgiu o apelido que atravessaria gerações. Célia foi presa em janeiro de 1969, depois que a polícia encontrou os corpos das crianças enterrados em lotes do bairro. O caso provocou alvoroço em Campo Grande e ela passou a ser acusada de praticar bruxaria, torturar e matar crianças. Célia sempre negou as acusações. Dizia que as crianças haviam morrido de causas naturais e sido enterradas fora de cemitérios a pedido dos pais. Quintal da casa ainda acumula brinquedos de crianças e a "energia" da lenda Maraina Gauna O que a Justiça decidiu Apesar da fama que carregaria pelas décadas seguintes, Célia acabou absolvida. Na sentença, o juiz apontou que não havia exame de corpo de delito nos autos e que não era possível estabelecer uma relação entre as lesões encontradas nos corpos e as mortes. A decisão apontou ainda que as crianças possivelmente morreram em decorrência de desamparo, desnutrição, fome e debilitação. Documentos do Tribunal de Justiça consultados pela TV Morena também mostram que Célia foi inocentada da acusação de ocultação de cadáver. Segundo a sentença, o crime estava comprovado, mas não havia provas de que ela fosse a autora. Célia foi absolvida em janeiro de 1971 e deixou a prisão em julho daquele ano. Depois, saiu de Campo Grande. A mulher foi embora. A “bruxa”, porém, ficou. Lenda da bruxa A história passou de geração em geração por toda a capital sul-mato-grossense. Maria de Lourdes Pereira lembra de quando Célia ainda morava no bairro e do momento em que foi levada presa. “Eu lembro assim, quando ela morava ali, aí vieram levar ela presa. Minha mãe comentava muito sobre ela pra gente.” Na infância, o nome da “Bruxa da Sapolândia” também servia para manter as crianças dentro de casa. “O povo colocava medo na gente, pra gente não ficar na rua porque ela vinha e pegava a gente”, conta Maria de Lourdes. Terezinha da Conceição Nunes também cresceu ouvindo histórias sobre Célia. Segundo ela, moradores contavam que mães deixavam os filhos aos cuidados da mulher para trabalhar e, quando retornavam, encontravam algumas crianças doentes ou mortas. Os relatos fazem parte das histórias transmitidas entre moradores ao longo das décadas. Mais de meio século depois, a casa associada a Célia continua de pé no Taquarussu. Marcos de Oliveira viveu no terreno por alguns meses. Quando chegou, conta que sequer sabia quem havia morado ali. “Os moradores falavam para mim: ‘Marcos, essa aí é a casa de uma bruxa, morou uma bruxa aí’. Eu falei: ‘Será?’. Aí depois eu fui ver nas redes sociais, fui ver que era mesmo.” Segundo Marcos, a fama da casa continua levando curiosos ao endereço. “Vem muita gente visitar. Vem até gente de outros países, que às vezes vem passar férias no Pantanal, em Bonito, vem aqui visitar. Ela é bastante conhecida.” E ele próprio diz já ter vivido situações que não consegue explicar. Em uma reportagem exibida pela TV Morena em 2017, Marcos contou ter ouvido vozes e risadas de crianças e sentido como se alguém o observasse enquanto morava sozinho na casa. Também relatou ter visto, durante a madrugada, uma menina de roupa branca e cabelos compridos embaixo de um pé de limão no quintal. “Eu me aproximei, ela foi para trás e sumiu”, contou na época. Hoje, Marcos afirma que situações estranhas ainda acontecem ocasionalmente. Quando sente que o “clima está muito pesado”, diz evitar uma parte do terreno. Casa ainda está de pé no mesmo local, escondida por árvores Mariana Gauna Caso vai virar documentário Agora, a história será revisitada no longa-metragem "O Retrato do Erro: A Bruxa da Sapolândia". O projeto está em desenvolvimento há cerca de um ano e meio. A equipe pesquisou documentos do arquivo histórico, inquéritos do Tribunal de Justiça, reportagens e depoimentos para reconstruir o caso. Ao todo, oito pessoas foram entrevistadas. A diretora-geral Isabelle Silva explica que o documentário também levanta questionamentos sobre a investigação e sobre a maneira como Célia passou a ser retratada. Ela destaca que Célia era uma mulher negra, periférica e de religião de matriz africana em uma sociedade majoritariamente católica. “Será que realmente ela é a criminosa perfeita? Ou é um desvio de investigação por intolerância religiosa e racial?”, questiona. Segundo Isabelle, o objetivo é justamente fazer o público revisitar uma história que, depois de tantas décadas, passou a ser tratada como certeza. “Como a gente não consegue provar, a gente consegue deixar essa pontinha, podemos dizer até essa dúvida de aconteceu ou não aconteceu. E é o nosso público que vai decidir realmente quem são os seus heróis e quem são os seus vilões.” O documentário está em fase de pós-produção. A expectativa da equipe é concluir o trabalho até dezembro e lançar o filme em 2027. Veja mais vídeos do Mato Grosso do Sul